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Como ser feliz aos noventa anos em uma bicicleta

Por George dos Santos Pacheco
02/04/25 - 09:55

"É que estou ficando velho. Acontece que a gente não sente por dentro, mas de fora todo mundo vê." (Gabriel García Márquez)

Naquela semana, em homenagem a dezembro, escrevi uma outra crônica atrevida: "Como ser feliz aos noventa anos em uma bicicleta", título tomado de empréstimo de García Márquez. A expressão faz parte de Memória de minhas putas tristes, a segunda obra de Gabo que leio, igualmente relevante. Nela, um jornalista nonagenário encontra a felicidade e um novo fôlego de vida após conhecer Delgadina, a jovem cortesã de Rosa Cabarcas.

O volume era relativamente novo, com algumas marcas de uso, tomado emprestado na Biblioteca Municipal; cinco capítulos, cento e vinte e sete páginas (os números acima de dez deveriam ser escritos como algarismos, mas considero-os uma pichação no texto). Em determinado momento do romance, o referido jornalista menciona o título da crônica semanal do El Diario de La Paz, mas seu conteúdo é completamente desconhecido, então, tomei a liberdade de mencioná-lo, por cortesia profissional entre colegas de ofício.

Para começar, e de passagem, o adjetivo "dominical" despertou em mim certa inveja, pois, além do sábado, nenhum outro dia da semana recebe tal tratamento; é, sem dúvida, um toque especial. A partir de agora, passarei a chamar meus textos semanais de "crônicas dominicais publicadas às quartas-feiras"; soa elegante, eloquente, erudito.

Digressões à parte, a história do velho é construída e imaginada após ele dar voltas em uma bicicleta dentro de uma loja, gargalhando e sorrindo, como se fosse uma criança. Ora, meu caro amigo, nunca fui bom de bicicleta; aliás, não tenho traquejo e desenvoltura em várias outras atividades e, hoje, estou convencido de que é impossível o tecido dos talentos cobrir simultaneamente os pés e a cabeça de qualquer pessoa. Agora, imagine um sujeito andando em pernas de pau por uma ladeira de paralelepípedos depois de uma chuva de verão: pois esse sou eu pedalando a bicicleta. E se alcançar quarenta e poucos anos já é uma grande conquista, chegar aos noventa com saúde, lúcido e sem limitações é uma dádiva quase utópica. Estar sobre uma bicicleta, então, é como ganhar na loteria.

Um misto de apreensão e zombaria provavelmente refletia os rostos das pessoas que assistiam a tal cena. E se o senhorzinho caísse e se estropiasse todo na queda? Meu Deus do Céu! Por outro lado, que maravilha presenciar algo assim! E a maravilha maior é viver isso. E pensar que tal fato acontecia porque o homem caía de amores por uma adolescente, felicidade apenas conhecida aos noventa anos (!).

Pois é exatamente disso que trata o livro, e também a crônica (a minha e a de García Márquez): essa felicidade clandestina que nos acompanha ao longo da vida e que, muitas vezes, é negligenciada. O romance do meu amigo colombiano se revela, a cada página, uma homenagem, não à juventude ou à velhice, mas à vida e à vontade de viver. Porque esse intervalo entre a alvorada e o ocaso dos homens, seja qual for a sua duração (quarenta, oitenta ou noventa anos), passa rápido, muito rápido, amigo leitor. E não vale a pena esperar tanto tempo para ser feliz.


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